um dia qualquer…

23/03/2010 at 09:18 15 comentários

e no centro de caxias, os 42 graus daquele verão intenso lembravam a brisa do inverno passado: naquela microssala, o termômetro marcava 50°, talvez por ser o máximo de seu marcador… o ventilador havia derretido e a geladeira estava queimada…

chafurdado em meio a papéis, freitas desidratava em contratos, notas fiscais, licitações, ao som balançante de 4 telefones fixos, 2 rádios e 3 telefones celulares…

– freitas? sabe aquela correção no contrato 76.543-0001? não será mais de 15,4%, será de 15,2… pode agilizar isso, aí, pra mim, por favor?

– tranquilo, tranquilo…

ele cuidava de todos os contratos da pequena empresa de terceirização de serviços…

e assim passava o dia:

– graaaaande freeeeitas! rapidinho aqui: processo licitatório com a prefeitura, diminui uns 3 mil e envia, fiquei sabendo que os caras abaixaram o preço… temos que pegar isso! sabe qual é, né?

– bom, processo licitatório com a prefeitura… perfeito! mas qual? caxias, nova iguaçu, belford roxo, mesquita, nilópolis…

– não, não, não! prefeitura do rio…

– ah, sim… distribuição de vidro, de cesta básica, cimento, material escolar, lâmpada…

– porra, freitas! tenho que ficar falando tudo, cacete? parece que não conhece nada! é daquele material que você orçou com aquela empresa lá…. não se lembra?

na hora do almoço, quase sempre a mesma coisa:

– aqui está, ‘quentinha’ quentinha… batatinha frita, strogonoff de frango, uma…

– frango? eu pedi de carne, seu armindo… poxa, todo dia? sempre isso?

– ah, é? você gosta é de carne, né? desculpa, amanhã, sem falta, vem certinho! pode contar comigo!

e os ‘pepinos’ eram os mesmo: sempre!

– então, januário, você chegou a enviar o atestado médico pra mim?

– enviei sim, freitas, mandei por fax…

– mas eu não tenho fax aqui, pedi pra mandar por e-mail…

– se você não tem fax, não tenho culpa, mas eu enviei…

e era assim o dia todo…

– ricardo, você me enviou as folhas de ponto?

– ih, freitas! não deu, não… ninguém terminou, ainda, de completar…

– mas ricardo, como assim? estamos em junho, essas folhas são de abril… como não terminou de preencher? são as entradas dos dias do mês!

– freitas, fica tranquilo, fica tranquilo: eu vou mandar o índio ir aí, te entregar…

confere folha 1, seca suor, confere folha 2, seca suor de novo, carimba folha 1, carimba folha 2, seca suor, grampeia folha 1 na folha 2, seca suor, enfia no envelope… e, diariamente, esta rotina é repetida, pelo menos, 300 vezes… é o número de folhas de ponto, junto aos atestados, junto às justificativas e variantes… conferir as licitações, uma a uma, da semana, quais foram reprovadas, quais passaram, ‘preciso de um condicionador de ar’, almoça o que não quer, e, como de costume, no meio da tarde, no auge do calor e da falta de paciência, atender a ligação do chefe:

– freitas?

– pronto, tavares!

– freitas, como estão as licitações?

– tudo certo, tavares!

– e as folhas de ponto?

– tudo certo, tavares!

– as novas normas foram enquadradas nos contratos antigos?

– sim, tavares!

– e nos novos?

– também, tavares!

– quantas licitações estão esperando aprovação?

– o número, exato, não tenho aqui… ficamos sem internet essa tarde…

– ai meu caralho! e por alto?

– contando com quais?

– como: ‘contando com quais’? contando com as que temos, oras!

– tavares, é que temos muitas, algumas nem passaram pelo processo licitatório, ainda…

– freitas! e os atestados? estão batendo?

– estão, tavares…

– freitas, freitas, freitas…

freitas não estava mais aguentado o calor, o trabalho, o tavares:

– tavares: por quê você não vai tomar no seu cu?

– freitas?

– não, você, tavares! Por quê você não vai tomar no seu cu?

– que isso, freitas? eu te mando embora!

– aaaaah, isso eu quero ver! cuido dessa merda desde que era só essa salinha, agora que a empresa cresceu, continuo sozinho, vendo tudo isso, e aumento? fiz de tudo por essa empresa, sei de tudo que rola por aqui, todas as suas falcatruas e tudo o mais… está um calor do caralho nessa merda dessa sala! me manda embora que você vai ver: vai ficar perdidinho!

– freitas, que isso, rapaz? olha como fala comigo!

– ‘falo contigo’ é o caralho! falo do jeito que eu bem entender! eu quero mais é que você se fôda!

Toca o interfone, freitas atende:

– alô!

– o que é, freitas?

– não estou falando contigo, sua besta! estou atentendo o interfone… ALÔ, PORRA! quem é?

– é o índio…

– abriu?

– abriu…

– então sobe… tô de saco cheio, tavares! se quiser me manter aqui vai ter que fazer por onde!

– te conheço a tanto tempo, rapaz… já fiz tanto por você… isso é jeito de retribuir? quando você reclamou do calor, comprei uma geladeira pra você, um ventilador… você sabia que não tinha condições de comprar um ar condicionado, não é?

– tavares, fiz muito por você também… e isso tem 3 anos, tavares… 3 anos! o ventilador, acredite, derreteu por causa do calor… a geladeira, como não está funcionando, está servindo de arquivo… tem mais de 2 anos isso… você não fez nada…

toca a campanhia…

– você é muito safado, tavares, isso não se faz… ‘peraí’ que vou atender a porta…

aao abrí-la se depara com o índio: cabelos longos e escorridos, um cocá grande, bem grande, com penas longas de arara (azul e amarelo); pintura facial – um risco do meio dos olhos até a ponta do nariz, em vermelho, e 3 linhas paralelas um cada uma das bochechas; um disco de madeira nos lábios, um colar de sementes e dentes de jacaré, sem camisa, uma tanga, descalso, segurando uma lança em uma mão e um envelope na outra:

– ‘táqui: documento!

freitas olhou-o de cima a baixo… retornou o olhar…

1 segundo foi o tempo para isso…

pegou o documento, agradeceu com a cabeça, fechou a porta e continuou:

– porra, tavares! eu quero um aumento e uma sala maior! se eu sair dessa empresa você está fudido, entendeu? FU-DI-DO! é melhor você me ouvir, porquê senão…

.

.

O camara Jhon Bermond chegou a ilustrar este conto pra mim, mas não teve tempo de colorir (parece que ficou tomando raio na Pedra da Gávea, algo assim). Como há muito não postava nada assim, não consegui esperar, mas se ele o fizer (após se recuperar do choque), coloco aqui e aviso.

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Espaço democrático… #3 PROMOÇÃO – Customize um Toy Art

15 Comentários Add your own

  • 1. Guilherme  |  23/03/2010 às 10:12

    hahaha, muito bom !

    esse texto aí dá até pra virar roteiro pra um curta

  • 2. coracaodepoeta  |  23/03/2010 às 10:19

    Hehehe, obrigado, Gui!
    Sempre bom tê-lo por aqui!
    😀

  • 3. isoca  |  23/03/2010 às 11:25

    E eu fico aqui pasma a me questionar: De onde surge tanta criatividade? Parabéns!

  • 4. Alice  |  23/03/2010 às 12:48

    Soa-me familiar…
    rs

  • 5. Yokohama  |  23/03/2010 às 12:52

    hahaah xD *de pé batendo palmas*
    Adorei! Me acabei aqui auehaueaeh Vamos lá freitas! Chuta o balde!
    “- não estou falando contigo, sua besta! estou atentendo o interfone… ALÔ, PORRA! quem é?” – hihihi morri! haha
    Ótimo texto! Quero ler mais!

  • 6. coracaodepoeta  |  23/03/2010 às 13:53

    Isis: Obrigado, linda! A gente observa a vida…

    Alice: Gotcha! A vida é a maior inspiração…

    Tatyoko: Obrigado! Hehehehehe.. Que bom que gostou! Volta mais vezes que tem dias que dá pra tentar fazer rir… 😀

  • 7. LuizLima  |  23/03/2010 às 15:07

    Eu acho que preciso aprender com o Freitas alguns métodos…
    É preciso…

  • 8. Ingridh Freitas  |  23/03/2010 às 16:41

    Não sei porque, não sei em qual detalhe… Mas me identifiquei com este conto…

    Por que? Eu me pergunto, por que?

    Muito bom J, MUITO BOM MESMO!

    Se continuar nesse ritmo, em breve vou ter que fazer uma nova seleção do meu preferido!

    🙂

  • 9. rogeriomarcal  |  23/03/2010 às 16:51

    Cara, que conto irado. Me amarrei.

    É exatamente assim em vários lugares. Vejo que, meu trabalho, que reclamo tanto, é “o céu” perto disso tudo, mas mesmo assim tenho meus motivos para reclamar e adoraria enfiar … um monte de coisas … em um monte de gente, pelas insanidades e absurdos.

    Sobrevivo, até quando der.

    Parabéns, meu amigo. =)

    Grande abraço.

  • 10. Ramon  |  23/03/2010 às 19:27

    Aêeeeeeeeeeee! Meu amigo está de volta!

    Só uma parada importante: isso aí não é um conto, é uma crônica.

    Forte abraço!

  • 11. coracaodepoeta  |  23/03/2010 às 21:50

    Luiz:
    as vezes é necessário, né?

    Ingridh:
    Cara, só depois que me toquei!
    Hahahahahahaha.. Freitas, Caxias…. Hhahahahaha
    Obrigado, amiga!

    Roger:
    Obrigado, querido! Mas num é… todos temos problemas, vendo os alheios, as vezes os nossos parecem pequenos, mas pô, são nossos, né?! Sabemos onde dói nosso calo…

    Ramon:
    Aaaaaaaaah, seu safado!
    ah é, pô, sempre erro…
    Hehehhe…
    Obrigado, cara!

  • 12. Rodrigo Melo  |  26/03/2010 às 15:54

    CJ, Eu sou seu fã!
    Que parada irarda!
    Fantástico!
    Depois de ler isso, me veio uma ideia que quero debater contigo… rsrsrs
    a gente se fala!
    Tú é foda!

  • 13. coracaodepoeta  |  26/03/2010 às 16:01

    Pô, querido, que isso?!
    Você que é meu fã? Não tá invertendo aí a ordem das coisas?
    Hehehe…
    Puxa, obrigado, mesmo, pelo carinho!
    Vamos conversar, claro, pô, sem erro…
    Como não?

  • 14. Jhon Bermond  |  01/04/2010 às 00:26

    Poooooooooowww! .. cara, como eu vacilo!
    desculpa cara ..
    puta que pariu .. sou um filho da mãe!
    Eu ainda estou meio chocado, mas isso não é desculpa!
    =/

  • 15. coracaodepoeta  |  01/04/2010 às 11:20

    relaaaaaaaaxa, querido!

    Qualquer coisa eu ‘republico’ se você conseguir acabar…

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