a plausível história do homem que infringiu a lei da gravidade…

18/12/2009 at 09:13 3 comentários

Quando Isaac Newton ‘descobriu’ a lei da gravidade, não imaginava nada parecido. Mas tudo bem, há 10 anos nenhum ser comum (há 20 eu desconfiava, mas, via isso em desenhos todos os dias) imaginava que as video-chamadas seriam viáveis, e olhem para o lado.

Maurício acordou, costumeiramente, às 6:35, o snooze de seu despertador não funcionava mais, após 3 anos, 5 dias por semana, no mesmo horário, fora a tecla mais usada, na verdade, a única – o rádio só foi ligado no primeiro dia, e para testar – levantou-se, pensou nos invejosos com os quais trabalha, no serviço cretino que tem que apresentar todos os dias, em sua namorada chata que vive lhe cobrando para casarem, e na sua vontade de voar.

Morria de pavor de avião.

Chegou a fazer o curso básico para pular de paraquedas, experimentou roupa, se preparou, assistiu vídeos, aulas, vídeo-aulas, foi ao local, não subiu no avião e foi pra casa, almoçar com a namorada, que ficou a desdenhar. Não chegou a chamá-lo de frouxo, mas insinuou a tarde toda.

Seu medo de voar atribuia-lhe a uma baixo auto-estima fora do comum. Pelo mesmo, não largava seu emprego e continuava a aturar a moça.

Ao se dirigir em direção ao banheiro, sentiu sede, desviou-se  a caminho da cozinha. Não estava acostumado, quase tropeçou em seu tênis, que costumava deixar na sala, no dia anterior, para se arrumar. Bebeu água e voltou, mas não conseguiu desviar do calçado, tropeçou e… ficou inerte no ar. Caiu mas não caiu. Seu corpo foi projetado ao chão, meus pés pararam de tocá-lo, mas ficou lá, no meio do ar, como se não tivesse peso o suficiente para cair.

Assustou-se, claro. Tentou se virar para um lado, tentou se virar para o outro: conseguiu para ambos. Colocou os pés na parede e, como se não existisse gravidade, começou a andar por ela, até chegar ao teto. Sentiu um gelado no estômago, mas decidiu ir. Pisou com um, sem problema, largou a parede e colocou o outro junto ao anterior. Pronto! Estava em pé no teto. Andou, correu, rolou, pulou… E ficou parado no ar. Viu que não poderia pular. Mas tinha controle sobre seu corpo. Estava, literalmente, flutuando.

Desceu do teto e foi tomar banho. Ia se atrasar…

Será que conseguiria ir voando? ‘Até que descer estes 13 andares pelo lado de fora deve ser mais rápido, né?!’, pensou. Tomou seu banho sem a correria habitual, até demorou mais, na verdade, ao se ensaboar, foi para o teto, lá poderia passar sabonete no pé sem escorregar, o que também conseguiria fazer no chão, já que não caía.

Tentou se trocar no teto, mas como só ele conseguia ficar, ainda tinha que aprender como fazer para levar as roupas para cima.

Seu apartamento estava domado, perfeito. ‘Será que lá fora eu também conseguirei?’, e, pronto, virando-se para a janela, pôs o primeiro pé para fora, inclunou o corpo à 90° de seu edificio e foi descendo pelas paredes do prédio. Sem maiores problemas. Resolveu correr, avistara seu ônibus ao longe, ‘Nossa, ainda consigo ver de forma previlegiada, as coisas do alto são muito melhores!’, foi tomado por um sentimento de superioridade. Correu em direção ao solo.

Faltando 3 andares pulou em direção à casa ao lado. E que salto! Digno de super-herói de quadrinho. Conseguiu adiantar uns 50 metros. Foi tomado por um sentimento estranho, preferiu correr e dar leves pulos longos, resolveu tomar cuidado para que ninguém visse. As (poucas) pessoas que estavam na rua estavam atrasadas, não tinham tempo para ficar analisando.

Ao chegar no trabalho, resolveu ficar na sua, embora por dentro parecia uma panela de pipoca (comparação pífia, mas verdadeira).

Seu chefe passou por ele, perguntou a que horas ia ser a reunião, ele fez que não viu. Sempre fora solícito. Seu chefe estranhou. Chegou em sua sala e ligou para ele:

– Maurício, que horas é a reunião hoje?

– Não sei, chefe.

– Não era incubência sua?

– Era não, é. Mas eu não sei…

– Olha aqui, precisamos conversar…

– Mas não é o que estamos fazendo?

– Rapaz, rapaz… Não estou de graça…

– Sinto muito, senhor, nem eu.

Desligou. Estranhamente, voar lhe dera um sentido novo, um poder que não sabia que tinha. Deu em cima das meninas na rua (até arrumou telefones), almoçou mais tranquilo, se desligou da dieta low carb, admirou mais a arquitetura das ruas, pensou nos cursos que queria fazer, nos lugares que iria visitar – e agora, de graça – nas coisas que deixou de fazer porquê ia perder muito tempo no engarrafamento: havia se libertado.

Fez um pequeno teste, para começar a ter controle sobre sua, digamos, levitação. Sentado na cadeira, pressionou as pontas do pés contra o chão. Deu uma leve subida que teve que interromper segurando na mesa, para não chamar atenção. Repetiu o gesto, até ficar poucos centímetros do assento e, estabilizado, tirou a cadeira debaixo de si, como estava em sua estação de trabalho (ou ponto-de-atendimento; quem tem baia é cavalo), e já não notavam sua presença, tanto fazia se estava flutuando ou não.

De certa forma, havia controlado… Não sabia, por exemplo, como fazer para voar. Mas tudo bem…

Sua namorada, que tabalha num setor próximo, mandara um e-mail, perguntando porquê não ligou quando chegou no trabalho. Mandou que ela fosse ao encontro dele na sala de seu chefe, que, coincidência do destino, era seu sogro.

Ao chegar, ela já estava lá, discutindo com seu pai, sobre um apartamento que ele prometera para os dois. Ele pediu licensa, deu bom dia, um leve flutuada: nem perceberam. A discussão ia tomando uma proporção maior ele foi até o canto da sala, alongou-se, gritou e saiu correndo em direção a janela. Os outros dois pararm a discussão e, imóveis, assistiram ele percorrer de uma ponta a outra, pular e se jogar pela janela.

Não houve explicação, corpo, evidência, nem algo do tipo. Maurício havia se libertado.

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A Vinícius, em seu bom lugar… Previsões para vintedez!

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