A Vinícius, em seu bom lugar…

14/12/2009 at 10:19 1 comentário

Segundo dia de férias, muitos planos. Fui acordado às 7 (me recordo perfeitamente bem desse dia), estranho, minha tia (emprestada – casou-se com meu tio) perguntando se eu estava sentado. Não, isso não é normal. Vovó. Não acredito! Vovó… Mas não. Ela, com todos os problemas que só deterioram-na a cada dia, continuava bem. “Meu filho, seu tio morreu!” – passados exatos 6 meses, a emoção de lembrar do fato é a mesma.

1987 – Filho de pais separados, estava com a parte masculina passando o sábado de costume, fomos a uma pizzaria na Tijuca (não sei se ainda existe – Pinocchio) e lá eu recebi um presente: uma lanterna em formato de pistola laser. Adorei. Ao chegar em casa, já bem tarde, estava passando o extinto programa do apresentar dominical cujo a bestialidade equivale a antiga massa corpórea [fez uma operação de estômago] – não me esqueço daquelas imagens: uma rapaz negro, vestido de capeta, esfregava as costas e o rosto em vidro moído e não se cortava – e, em outro canal, estava passando Star Wars – O Império Contra-ataca (que se tornou, talvez por causa desse dia, o meu episódio favorito da série), que, acredito, na época ainda não tinha a denominação de ‘Episódio V’.

Estávamos vendo o aparelho televisor, eu, vovó, tio Vinícius e seu amigo, Ricardo. Após a famosa frase “Luke, (respiração eletrônica) eu sou seu pai!” – falada em português, mesmo, filme dublado. Meu tio e seu amigo estavam a discutir como um braço é cortado e não jorra sangue, se o fato de ser laser já cauteriza o ferimento (não exatamente assim, mas, para contar, fica mais bonito – não lembro das palavras exatas), quando eu, guri, 6 anos, meio sonolento, tirei a pistola do bolso, apontei e disse: ‘é que é isso aqui, ó!’. E atirei neles.

Os adultos acharam graça, meu tio olhou pro lado, numa idiossincrasia que o melhor dos atores não reproduz, pediu a arma emprestada, apertou o gatilho e sorriu.

Memórias similares a essa foram recheando o caminho longo e torturante que se dera até chegar em seu município. O dia estava mais cinza. A última lembrança que tenho dele foi, duas semanas antes de sua partida, estarmos na casa de meu avô, eu estava almoçando, minha mãe, pra ser diferente(!), gritava com minha irmã (que essa menina não se prejudique por isso, consegui sobreviver, ela também consegue), meu avô ria, e minha vó, que sofre de um péssimo mal, milagrosamente, estava entendendo todas as péssimas piadas que ele, já levemente alterado por completo pelo álcool, contava. Ele era muito ruim, nossa mãe! Mas tinham graça. A graça era ele contando.

É provável que todos os sobrinhos e filhos tenham aprendido o cinismo familiar com o seu famoso ‘é mesmo?! num sacaneia…’

Seus VVV’s espalhados nas suas coisas… Os eletrônicos que você montava e desmontavam… “Pede pro teu tio Vinícius, é ele que sabe mexer nessas coisas de computador, de eletrônico”, era, mesmo. Não tinha pra ninguém.

E o vazio que este tio, pai, amigo, herói e exemplo deixou, continua. Nunca senti isso, e sempre soube que despedidas não são o meu forte.

Porquê aconteceu não sei, mas um dia meu tio acordou e viu que o mundo era um lugar pequeno, já não mais era bom o suficiente para ele e a noite, partiu. Contou sua pior piada.

Amanheceu sem uma cor. Me roubaram da paleta. Dá pra pintar com outras, mas aquela eu perdi.

Camarada, tu faz falta, hein?! A gente segue, claro… Mas faz falta. Se faz…

Aproveita e prepara nosso caminho, pô, por favor. Não pra agora, mas é bom ter preparado, né?

Não vai completar a que deixou, mas, volta e meia, quando me lembro de ti, olho pro lado e repito:

“É mesmo?! Num sacaneia…”

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1 Comentário Add your own

  • 1. isoca  |  14/12/2009 às 10:38

    Nossa! O texto é emocionante de arrepiar…juro pra você.
    Muito bom!

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