sãocormidaminhão…

28/09/2009 at 11:09 10 comentários

e com o tempo bem nublado, sábado às 8 [da manhã], dirigindo até a região serrana, um tanto quanto puto, não nego, em meu chevette 87 ia a pensar o que estava fazendo àquela hora em plena avenida brasil, ao encontro de minha velha vó que, como todos os anos, me encarregara de ser o comprador oficial (não é pra qualquer um, não, hein?!) de seus doces de são cosme e são damião… por algum motivo, que não faço idéia qual, e provavelmente nem mais ela, desde que me entendo por um fiapo de ser humano, a açucarada velhinha distribui os famosos saquinhos com guloseimas…

sinto pingos no parabrisa, penso que devo pesar um pouco mais o pé – não quero subir a serra na chuva e ainda estou no início da washington luiz…

do outro lado da rodovia, avistava um parque de diversões, daqueles bem velhos, sabe? de beira de estrada… a centopéia verde estava bem amarelada pelo sol e seus detalhes vermelhos, descascados… foi quando percebi que naquele dia o destino estava inspirado: na hora que a chuva apertou, senti um solavanco na traseira direita e o carro deu uma arriada…

fato que meu pneu tinha furado, mas naquele exato momento não podia parar… fui me dirigindo ao acostamento e lá parei, tinha que esperar… após meia hora e nada da chuva cessar, meu telefone móvel toca: é a minha vó…

uma senhora que não sabe ligar uma televisão pelo controle, não faz idéia de como se usa a internet, se enrola toda para usar 30 segundo nos microondas, mas quem diabos foi o filho-de-uma-égua que ligou pra mim e colocou-a no telefone? ah, já sei: deve ter sido minha mãe…

– alô, tá me ouvindo?

– sua benção, vó…

– tu fostes fabricar os doces?

– não vó, fiquei preso aqui, meu pneu furou e fiquei preso aqui na chuva…

– tua mãe tava falando aqui que você não vinha porquê estava embriagado de ontem… – o pior é que estava, mesmo, mas havia prometido…

– não, vó! acordei bem cedinho, é que fiquei preso, mesmo, com a chuva e pneu… eu já estou indo…

– …

– vó?

– …

– vóóóó?!?!

– …

– ah, merda, caiu a porr…

– e-ei, psiu! olha os modos..

– desculpa, vó, achei que tinha caído…

– …

– vó?

– …

– ah, porra!

chuva estiada: ‘e lá vamos nós!’

salto do carro e em direção ao porta-malas me encontro, quando vem o primeiro guri correndo:

– aê, tiô! num tem um real não, pa mim cumê um negóço?

– tem não, garotão…

– ih, pneu furô, é?

– é o que parece..

– ih, se fudeu…

– ah, obrigado pelo incentivo…

– aê, tiô! se eu te ajudá tu num me dá um real pra me ajudá a cumê um negóço?

– que tipo de ajuda você pode me dar?

– ué, fico segurando esse bagulho aê pru senhor… o senhor troca lá, e, com todo respeito, me dá o um real que me deve…

bom – penso dentro de meus tênis encharcados pela poça que acabara de pisar – pode ser uma, né? dou o um real pro moleque, ele não me enche mais e todo mundo fica feliz:

– fechado! vou tirar aqui o estepe da mala…

com o porta-malas cheio de marias-moles, pés-de-muleque, jujubas, paçocas, suspiros, doces de abóbora, de amendoim, pirulitos, balas, bananadas, pipoca doce… fazendo um esforço gigantesco praquele ser não ver, né? havia puxado a toalha e todos os talheres haviam ficado na mesa: com a roda já na mão, o garoto não me olhava mais, quando um copo resolveu quebrar: do aro, caiu uma paçoca…

– ih tiô! caiu essa paçoca? ela é sua? posso comer ela na moral?

– pode, pode sim…

– hoje é dia de sãocormidaminhão, né? o senhor tem mais doce aê, tiô?

– olha… – por que raios eu não menti?!?! – tenho, mas não é meu…

– aê! o tiô aqui tem doce, gente!

foi o tempo de tentar pensar em pegar a chave… já tinham 15 crianças a minha volta gritando ‘tiô! tiô! tiô!’, ‘dá pra mim! dá pra mim! dá pra mim!’, ‘e o meu?! e o meu?! e o meu?!’ e pulavam, se acotovelavam, logo ao lado tinham dois garotos, de seus 6, 7 anos, rolando no chão molhado e puxando um saco plástico amarelo, desses de mercado, e, ao abrir (leia-se: rasgar) voou açúcar para todos os cantos… foi a minha brecha:

– ih, gente! olha quanto doce no chão!

e pularam todos nos doces… fechei o bagageiro, fui trocar o pneu e começaram a se atracar…

aproveitei, pois sabia que após duas mortes, 3 traumatismos cranianos e alguns ossos quebrados eles voltariam para pegar os ‘meus’ doces… mas como eu iria fazer? não eram meus…

– tiô, tiô, tiô, quer ajuda?

e no que aquele primeiro menino gritou isso, todos pararam de se morder, se furar e vieram em minha direção:

– ah, beleza, já que não conseguiram se matar, vão tentar a mim, né? trabalham em equipe – pensei…

– tiô! tiô! tiô!

não aguentava mais aquela situação, foi quando aquele saco amarelo voou em minha direção:

– gente! vamos fazer assim? eu vou terminar de apertar esses parafusos e quando acabar eu dou um real pra cada um, que tal?

– êêê! tiô!

mas aquele primeiro (se existiu outra vida, eu devo ter feito muito mal a esse menino!) não ficou muito satisfeito com a proposta:

– ah, mas eu queria era doce… um real o senhor já me prometeu…

e, se diferente fosse, não haveria motivos para contar essa história, começaram:

– ah, tiô! eu também quero um real e doce… eu quero doce e um real.. ah, tiô, por que só pra ele? pô, na moral, aê…

emputecido eu gritei:

– eu num vou dar é mais porra nenhuma pra ninguém!

mas me toquei que não estava no lugar mais seguro do rio de janeiro e que, provavelmente aquelas crianças voltariam com seus pais, irmãos, mães ou sejam-lá-quem-fossem, e, sinceramente, não estava com muita vontade de testar a índole deles… foi quando o saco amarelo voou de novo e uma nova luz surgiu…

– ah! você acreditaram, né?! peraí, rapaziada! eu vou trocar os pneus e vamos fazer assim: você são 1, 2, 3, 4… 8… 12… 16… 24… 45? – caralhous me fodaum, eram 15! triplicaram? – então, eu vou dar 3 saquinhos agora…

– aaaaaaaaaaah tiô… mas..

-peraí, gente! peraí, peraí, peraí… eu vou dar 3 saquinhos (ouviu-se, lá no fundo, uns 5 ‘aaaah’s) e quando acabar eu vou dar a volta e passar aqui de novo, vou distribuir pra todo mundo, tá?

– e se num der?

se num der, num dei! num tenho obrigação de dar doce pra ninguém, isso é coisa da minha vó…

– e eu já dei algum motivo pra vocês não acreditarem em mim? eu vou entrar no carro, dar a volta, e passo aqui com os pacotes cheios pra vocês, tá?

não gostaram da idéia, não, mas tinham que aceitar ou me matavam… ainda bem que preferiram a primeira opção…

peguei, conforme prometi, os provocadores de cárie e distribuí… pasmado fiquei quando, delicadamente, cada indivíduo pegou um e passou adiante… estavam perfilados, sentados no chão; empenhados em se comportar e a ganhar mais…

terminei, disse que ia colocar a chave de roda no carro… como se não houvesse amanhã, entrei no carro e acelerei! pelo retrovisor eu vi aquelas carinhas desoladas ficando cada vez menores… alguns esboçaram umas reação de se levantar, porém, logo em seguida, vendo o quão inútil seria, voltaram pro chão…

a consciência foi minha inimiga… mesmo deixando claro a elas que eu ‘voltaria’…

parei num posto de gasolina para ver se estava tudo certo… e fiquei pensando naquelas crianças… naquelas pupilas brilhosas… mas pôxa! os doces não eram meus… o que resolvi fazer?

para dar uma falsa esperança àquelas almas desafortunadas, a sacola amarela, que volta e meia me dava uma iluminação, dessa vez foi a própria: peguei várias que estavam no meu veículo e enchi-as com jornais velhos… eram muitas… aquelas crianças iam ficar muito felizes quando me avistassem… após distribuir, me comprometi a não olhar pra trás…

sacolas cheias, automóvel carregado, falsa boa vontade em punho… era só partir para o meu objetivo… fiz a volta, a volta de novo e lá estavam aquelas crianças… cheguei buzinando…

-tiô! tiô! tiô! tiô!

era uma felicidade só! de ambas as partes! nossa! me senti papai noel!

– valeuzão tiô, aqueles saquinhos só têm doce bom, aí! deus abençôe o senhor…

e ao ouvir isso joguei todos que estavam no carro pela janela e parti… pô! santo nome em vão é sacanagem!

chegando na minha vó, voltou a me peguntar se estava fabricando os doces.. para não ser grosso (grosso é o caralho!) com ela, preferi roubar uns pés-de-muleque, comer um pedaço de bolo e, quando ia partir, o sono me pegou…

às sete e meia da noite, quando acordei, após a feijoada cancelada, a possível trepada cancelada, o open house de um amigo (que acabara de casar: coitado!) também, fui-me…

chovia, mas não muito e após descer a serra, peguei a direção oposta do caminho de ida (o que parece ser óbvio, não?!)… ao passar do lado da comunidade as coisas pioraram…

a direção, devido a chuva, se perdendo… não estava obedecendo os comandos… começaram a voar sacos pela pista…

veio o primeiro, desviei… o segundo, um saco amarelo… desviei… mas ele desviou junto e levantou: grudou no parabrisas, tampando minha visão e de lá não saiu! o terceiro, que não vi, prendeu na roda… o quarto prendeu na mesma roda do anterior e perdi a direção…

o freio estava com delay, dei uma rodapiada na pista e, atravessei o aramado da lateral direita… sem direção e com uma velocidade elevada, adentrei o parque que, por ser chão de brita, foi freando meu carro… mas só depois que bati na cabeça da centopéia – que visão medonha, gente! cara a cara com aquela cabeça descascada, rindo frente a mim, chuva, escuro, trovodas ao fundo… se eu não tivesse visto, ia achar que coisa de filmes de segunda linha…

não sabia o que fazer: se saia do carro, se ligava pra um reboque, se pedia a deus…

deitei a testa no volante para ver se surgia um luz e sinto alguém batendo no vidro… olho, vejo um vulto segurando um saco plástico amarelo… é um vulto pequeno, deve ser uma criança… já estava todo fudido, mesmo, abro a janela:

– aê, tiô! o senhor voltou pra dá meu doce?


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Desculpas! expo nova noiva…

10 Comentários Add your own

  • 1. isoca  |  28/09/2009 às 15:23

    Bom, muito bom…

    Queria saber onde fica a fonte da criatividade, hehe.

    Me lembrou das festas de são cosme e damião, mas só convidavam quando eu era criança, agora que grandinha… 😦

    Gosto dos doces do mesmo jeito, então vou pedir pra você, pode ser?

    -Eeee! Tio, dá um doce?

  • 2. coracaodepoeta  |  28/09/2009 às 15:44

    hey, moça… tenho idade pra ser tio, não…
    a minha irmã mais velha tem 10 anos…
    😛

    e obrigado pelo carinho!
    8)

  • 3. Alice  |  28/09/2009 às 18:50

    Titio!!!!!! Eu também quero doce!!!!!! Depois dessa sua aventura sobrou algum? Bjs, Alice

  • […] sãocormidaminhão… « :: o meu mundo era um apartamento :: coracaodepoeta.wordpress.com/2009/09/28/saocormidaminhao – view page – cached e com o tempo bem nublado, sábado às 8 [da manhã], dirigindo até a região serrana, um tanto quanto puto, não nego, em meu chevette 87 ia a pensar o que estava fazendo àquela hora em plena… (Read more)e com o tempo bem nublado, sábado às 8 [da manhã], dirigindo até a região serrana, um tanto quanto puto, não nego, em meu chevette 87 ia a pensar o que estava fazendo àquela hora em plena avenida brasil, ao encontro de minha velha vó que, como todos os anos, me encarregara de ser o comprador oficial (não é pra qualquer um, não, hein?!) de seus doces de são cosme e são damião… por alguma motvio, que não faço idéia qual, e provavelmente nem mais ela, desde que me entendo por um fiapo de ser humano, a açucarada velhinha distribui os famosos saquinhos com guloseimas… (Read less) — From the page […]

  • 5. Náshara  |  28/09/2009 às 22:05

    Além de: Tio, me dá um doce? (pq de fato não ganhei nenhum nesse Cosme e Damião)

    Quero saber de onde sai tanta criatividade! Me explica?

  • 6. coracaodepoeta  |  28/09/2009 às 22:17

    8)
    obrigado pelo carinho, gente!!!

    bom, eu ouvi uma história parecida há uns 10 anos…
    se fosse comigo (deixando bem claro que nããão aconteceu, até pq não dirijo – os assistencialistas iam cair de pau em cima, mas tudo bem), imagino que seria algo parecido…

  • 7. biológica!  |  29/09/2009 às 03:09

    …Então…continue imaginando…
    … e compartilhando sempre!..

    Mas… aproveitando o ensejo:
    – Tiô, tem amêndoas açucaradas?

  • 8. juzanotelli  |  29/09/2009 às 12:09

    huiehuiiuehiuhe
    muito bom! e até ler os comentários achei que realmente tivesse acontecido. mas tem que ter muuito azar!
    vc escreve bem demais! 🙂

  • 9. coracaodepoeta  |  29/09/2009 às 13:53

    valeu, ju! brigadããão!

    mesmo se tivesse acontecido eu teria q dizer q não, sabe? volto a repetir: os assistencialistas iam cair matando, levantando bandeira, querendo me colocar na fogueira…

  • 10. Jennifer-Tool  |  23/10/2009 às 15:12

    necessario verificar:)

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