O dia em que Nicéphore Niépce se arrependeu postumamente…

10/07/2009 at 16:44 1 comentário

Domingo, 6 horas da noite, acabara o jogo do dia (pouco importava quem vencera),  mesa grande de família na churrascaria rodízio (mas ainda com poucos integrantes), comemoração do aniversário de alguém (talvez esse fato irrelevasse mais que o vencedor do jogo), os 4 chegaram mais cedo (“pra pegar lugar, né?!”), estavam esperando os outros para pensar em talvez comer ou (talvez) ficar de prosa e Vitória não aguentava mais seu pai reclamando da demora da família da mãe, seu irmão a pentelhar-lhe, de 3 em 3 minutos (cravados nos ponteiros) aparecia um garçom “deseja algo para beber, senhorita?”, quando viu, perdida em cima da mesa, a câmera fotográfica da família(

Faço aqui um grande parênteses [que pode ser visto como um parágrafo, como preferir] para falar do grande mal do início deste século, do bug do milênio, da peste 2.0, da praga viral: a máquina digital de fotos.

Há menos de 10 anos funcionava da seguinte forma: vai rolar um evento (seja ele aniversário, churrasco, bebedeira no bar, festinha de final-de-ano, etc…) → Esta reunião vale a pena ser registrada? Se sim, compra-se um filme, caso contrário, mantem-se do jeito que está → Dirige-se até a loja mais próxima e escolhe uma das opções: 12, 24, ou 36 poses (sendo que a de 36, por ventura, poderiam dar em 40, dependendo de cada tipo de máquina) → Coloca-se o filme na máquina e faz um teste, que geralmente era feito com a paisagem ou a pessoa mais próxima ao alcande da lente → Leva-a para o evento e, quando necessário, “junta todo mundo ali” e bate a foto (estas só eram tiradas na certeza eminente de que aquele momento serveria para a posteridade) → Espera-se o filme acabar e, após essa etapa, a partir do primeiro momento em que o seu salário caísse na conta, a ânsia de querer relembrar tais momentos, leváva-nos à loja reveladora, e, aí sim ,teríamos um “albinho” em que todos, sem excessão, poderiam levar aonde fosse e todos (agora os outros “todos”), mais uma (outra) vez, poderiam ver. Não explicarei sobre o processo de revelação, por ser mais chato e mais técnico, caso o desejo dos leitores seja para que o faça, será uma ordem.

As fotos eram tiradas. As fotos eram tiradas e impressas.As fotos eram tiradas, impressas e ficavam em um álbum. As fotos eram tiradas, impressas, ficavam em um álbum e você podia levar para onde fosse para todos desfrutarem delas. As fotos eram tiradas, impressas, ficavam em um álbum, você podia levar para onde fosse para todos desfrutarem delas e não corria o risco de ninguém “apagar” uma ou deixar de “te mandar”.

Não importa qual o motivo, há uma máquina a postos, sempre, para registar o que for, algo que vai desde “o primeiro banho” (porém, caso não o seja, pode ser ‘legendado’ assim) ao prato a ser saboreado em poucos segundos. 40% dos aparelhos de telefonia móvel possuem o artifício da câmera, independente da qualidade, do momento ou da vontade de outrem.

) e, antes de selar as pálpebras, pegou-a, ligou-a, olhou seu visor, fez o ajuste necessário para o que queria, apontou-a para si, [Flash!] tirou uma foto sua, rapidamente girou-a aos seus olhos, apertou qualquer botão, e ficou analisando sua “fotuxa”! Não satisfeita, repetiu o processo¹* (ligar/visor/apontar/flash!/analisar), “Vi, para de tirar fotos que a bateria tá fraca” –  cagou solenemente – com o “foda-se” e o “automático” ligados, repetia, repetia e repetia, constantemente, diversas vezes, consecutivas, chegou sua avó, junto à sua tia, o marido e 3 primos mais velhos – cagou pra eles – e o ¹* imperava, “Vitóóória! Larga essa máquina! Essa menina não tem jeito.” – baldes e mais baldes – com sua imutável máscara de cara-de-cu, apenas suas íris se movimentava, mesmo quando sua prima da mesma idade chegou continuou como estava, quando sua mãe virou e mandou que fosse cumprimentá-los, rabiolhou e voltou os olhos para a tela, de solavanco sua mãe arranca-lhe a máquina, “Vitória! Não te avisei? Acabou de acabar!” – mais potes – do seu lado, uma velha senhora, sua avó (Vó Vitória), tira uma máquina (melhor e mais nova que a sua) da bolsa e empresta pra sua netinha, que continua o processo¹*.


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eu quero a melodia feita assim… ATENÇÃO! Aviso importante!

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