operador de cobrança…

29/06/2009 at 12:06 4 comentários

o prefeito do rio quer tranformá-lo num pólo de telemarketing, isso me lembra um fato que talvez poucos saibam: já fui operador de cobrança (leia-se: atendente de telemarketing).

Basicamente era assim: ligava para o cliente que estava, nem sempre, devendo a loja, conversava sobre o débito, das vantagens da efetuação do pagamento (tínhamos que explicar que era importante a ‘realização do pagamento’) e que o crédito dele com a loja era importante para feitura de compras posteriores, que ajustando a situação perante a empresa não estaria apenas ‘limpando’ o nome, e sim, cumprindo seu dever diante à sociedade.

Um blablablá safado…

Era engraçado receber cantadas via telefone. Quem já falou comigo por essa via consegue imaginar o que onde estou querendo chegar. Dizem as línguas, de todas as qualidades, que possuo uma voz imponente, boa oratória, precisão e firmeza. Penso ser balela, que quem me fala isso, ou tá me gozando, ou está me ‘dando mole’. Creio falar mal, sem articulação suficiente e não gosto da minha voz fora da minha cabeça.

A verdade é que, por mais sacal que o trabalho fosse, era divertido. Ligávamos para a casa do clt (o famoso cliente, na linguagem da área) e seguíamos um roteiro:

– Bom(oa) dia/tarde/noite, poderia falar com o Sr. Fulano? É ele? Sr. Fulano Cicrano da Silva? Bom dia, Sr. Fulano Cicrano da Silva, quem vos fala é (meu nome) e eu falo da (nome da empresa), a administradora do seu cartão (nome do cartão) e o motivo do meu contato é sobre uma fatura em aberto desde o dia tal do mês passado no valor de x e o valor mínimo de y (30% de x), gostaria de saber se o sr. efetuará esse pagamento ainda hoje? posso agendar?

As respostas eram as mais variadas, óbvio: quando não diziam que iam pagar (e pagavam ou não), diziam que não iam pagar e ponto(.). Simples assim. O que eram as melhores. Melhor que me mandarem tomar no cu, me ‘fuder’, xingar minha mãe (geralmente de ‘puta’ – chamando-me de filho de uma), enfiar o telefone no rabo, entre outros que a educação não me deixa exemplificá-los(!)…

Após a parte chata(?) vinha a atualização cadastral.

Seria antiético da minha parte falar os nomes dos quais eu já me deparei, mas, ilustrando um fato, com nomes fictícios (o mais próximo do possível real, mas com certeza ninguém vai conseguir adivinhar, nem o próprio), a única vez que não me contive e ri de um cliente foi mais ou menos assim:

Estava fazendo carrapato com minha ‘treinadora’ (era quando colocávamos dois headsets na caixa discadora; um conversava, o outro monitorava), pois havia subido na empresa: do ‘ativo’ (parte do grupo que faz as ligações), para o ‘receptivo’ (a outra parte que é encarregada de receber as chamadas). Meus colegas de trabalho do antigo setor estavam gastando um pouco da inveja de seus corações em minha pessoa, afinal, com (apenas) 6 meses de empresa, havia conseguido um feito(!) que muitos, em 3 anos não conseguiram (e nem iriam). E foda-se também, estava lá porquê era o meu primeiro emprego e não queria aquilo, porém, para a [grande] maioria (de todos os setores de telemarketing do mundo) [não me desfazendo da profissão, da qual, com muito orgulho, fiz parte], aquele foi, é, e será o melhor emprego da vida da classe.  Logo, essa inveja se ‘materializou’ e veio na forma de uma ficha cadastral, a do próximo cliente, onde estávamos, justamente, dando suporte ao ‘ativo’ (onde a situação inversa era o mais comum – geralmente o ‘ativo’ é que suportava o ‘receptivo’, até em gritos de guerra [pasmem-se!], esse grupo adorava gritar para o outro: ‘pede apoio!’). A ligação caiu nas minhas mãos (orelhas) e a ficha se abriu junto a um ‘alô’ feminino, estava instaurada a desgraça:

– Bom dia, senhora!

– Bom dia…

Olho para o nome do cliente e não me contenho… Começo a dar sopros de riso no meio da fala:

– Gostaria de falar com o Sr. Mais…

– Peraí…

Ela foi chamá-lo. Nossa! É verdade, ele se chama ‘Mais’… Vou conversar com um cara que se chama ‘Mais’. A monitora nervosa, eu estava à beira de um ataque de riso. Torcia para ser um ‘recado’ (onde, apenas falávamos para atendesse, o nosso telefone, quem éramos e pedíamos para o titular retornar assim que possível). Mas não, o Mais tinha que estar em casa.

– Pronto! – disse ele, voz firme.

– Bom dia, Senhor Mais? – risos, e mais risos, e mais risos, mas meu áudio estava no ‘mute’ (prática normal entre os operadores, é só reparar: eventualemnte, quando você, leitor, recebe uma ligação, fala ‘alô’ umas 3 vezes, o fone parece mudo, de repente surge um barulho de lugar fechado e ruidoso, uma voz gracejosa [com certeza estava de papo com o colega do lado e te fez esperar por falta de respeito! conheço a classe, ‘o cliente que espere, hum, é mole?!’] e um bom(oa) dia/tarde/noite – o microfone estava no ‘mute’, botão da caixa discadora que corta o áudio para o cliente).

– É ele ‘mermo’! ‘Por’ não?

– É o Senhor (risos) Mais (risos) da (risos) Rocha (risos)?

– Isso, ‘mermo’…

Ora, como ele poderia se chamar Mais?! Desculpem-me os ‘Maises’ (qual o plural de Mais (nome próprio)?), mas ‘Mais’ não é nome? ‘Mais’ é advérbio de intensidade, de tempo, ‘mais’ é pronome substantivo indefinido, pronome adjetivo indefinido, ‘mais’ é substantivo comum, ‘mais’ é palavra de adição, mas ‘mais’ não é substantivo próprio! ‘Mais’ pode ter todos essas classes [gramaticais], mas ‘mais’ não pode ser nome de ninguém. Aliás, não poderia…

– (Risos, muitos e muitos) Quem vos é (risos) [meu nome] (risos e mais risos, o meu, sim, era um nome de verdade) e eu falo da [nome da empresa] (risos, afinal, se ele fosse uma empresa, [exemplo:] a Mais Corporação Ltda., e mesmo assim, com a mania do brasileiro de anglicanismos, provavelmente, Plus Corporation)…

E desliguei.

Estava tentando conseguir levar (viram a construção gerundista que aprendi com o telemarketing?) aquela ligação à frente. Mas não iria.

E quanto a pólo de telemarketing? Sem opiniões à respeito.

Porém (vou deixar o Coração de Profeta falar mais alto que o do [ele diz que é] Poeta), após a virada desse pólo, vou ao título do último livro do Chico (que finalizei essa semana que passou), não adianta chorar.


©Todos os direitos reservados

Anúncios

Entry filed under: Contos / Crônicas. Tags: , , , , , , , , , .

imagem sem barulhos… eu quero um samba!

4 Comentários Add your own

  • 1. Jujuba  |  30/06/2009 às 08:47

    Então… comentário nada a ver com operador de telemarketing.

    Mas uma vez conversando num telefone com o dono de um curso, achei a voz dele linda e fiquei encantada. Contei pra minha mãe que na hora matou a charada… ele é careca! Segundo a teoria dela todos os homens carecas tem a voz bonita…

    Quando o conheci pessoalmente constatei que ele era! heheheh

  • 2. coracaodepoeta  |  30/06/2009 às 09:58

    Hahahahaha…

    Obrigado, Julinha… Bom, pra quem não me conhece, eu sou careca.

  • 3. gianna  |  07/07/2009 às 22:15

    vc nem imagina como fico P. da vida qdo espero horas….
    ah, enfim…n mando matar ninguém…
    n, o desenho lá é devidamente surrupiado c desconhecimento da autoria…..rsrs
    como foi c o mia???
    viajei mesmo..valeu a pena…
    se bem q tudo vale né?
    e blá blá blá.
    bj

  • 4. Ingridh  |  06/02/2010 às 21:51

    Meu primeiro emprego foi como negociadora de uma empresa no Centro do RJ.

    Eu ri muito. Era exatamente esse o texto. E as técnicas de rir ou fofocar com o colega.
    Era bem divertido. De vez em quando dá uma saudade, mas logo passa.

    hahahaha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Coração de Poeta


sou só um mensageiro, um profeta, contador de estórias: coração de poeta

twitter…

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

flickr...

esperança…


%d blogueiros gostam disto: