la mala educación…

18/05/2009 at 14:22 5 comentários

– cara, você nasceu na época errada… você é um romântico à moda antiga… deveria ter nascido nos anos 20, 30… todo cavalheiro, deixa os outros passarem, dá a mão às moças para descerem do ônibus, segura a porta…

e foi isso que ouvi, sem entender exatamente, qual era/é o erro… bons hábitos e costumes foram dilacerados pelo tempo? precisa ser antigo para ser educado?

lembro-me quando começou o processo de educar-me (sim! não foi a minha mãe, ou meu pai, ou seja-lá-quem-for, diretamente, que me deu educação):

o ano era 1988 (já disse que adoro começar frases com ‘o ano era…’), minha querida vó materna tinha voltado do velho mundo, passara 4 meses em terras estrangeiras (de 23 de junho a 24 de outubro, menos de vinte dias da promulgação da constituição) pela primeira vez em sua vida… ela sempre foi uma pessoa muito educada e como uma ex-contadora, ex-professora de português e de história, criação ríspida(tanto a que teve, quanto a que deu), quarta filha (eu acho) de uma caralhada de irmãos, mãe de 5 filhos e avó de 11 (com mais um chegando) netos, em seu retorno, abismada estava:

– e as pessoas passam na rua e dão ‘bom dia’, sem nem conhecer! na fila, se você espirra, a pessoa do lado te diz ‘gesundheit!’ e te sorri… todo mundo fala ‘por favor’, ‘obrigado’, ‘dá licensa’…

certa vez presenciei um fato cuja lembrança desse dia me é clara como a do dia de ontem não o é: estávamos no elevador, mamãe e vovó conversavam e um rapaz estava ao nosso lado com duas sacolas de mercado… no parar do elevador (andar do moço), a avó do narrador abriu a porta, saiu, e ficou segurando-a, o filho-de-uma-puta-muito-grande [nota rápida: domingo retrasado foi dia das mães, as zonas do baixo meretrício devem ter ficado mais lotadas que a noite do dia anterior] saiu do elevador e como se fosse obrigação da pobre senhora saiu sem olhar para ela, agradecer ou sorrir… minha digníssima mãe (falando em mães…) disse para a sua ‘bem-feito, mamãe, quem mandou segurar a porta pra ele?’, que, como se realmente fosse obrigação dela, respondeu na mais solene calma ‘fiz minha parte’… a progenitora deste que vos fala, um primor de educação (onde foi que a minha vó errou?!?!?!), ficou a praguejar durante longos minutos (pois é, ela já era assim, só que, como o tempo nem sempre faz milagres, está pior!)…

tinha 7 anos na prezada data (engraçado [ou não], minha memória, que sempre foi boa, tem me trazido fatos passados com uma clareza enorme! mas tirando este comentário, isto é um assunto para um próximo post)… num belo dia de chuva, na volta da escola, a própria, após me buscar do colégio, deixou-me na portaria de nosso antigo prédio e partiu para a segunda fase de sua jornada: buscar seu outro neto (meu primo) em sua escola…

como nada tinha para fazer, resolvi dar uma folga ao dedo do porteiro, não precisaria mais apertar o interruptor [provavelmente é a primeira vez que escrevo ‘interruptor’ <- 2ª]; a qualquer sinal de ameaça de algum indivíduo para entrar, el botones abria a porta…

e no meio da brincadeira, percebi que as pessoas usavam, com uma certa frequência, um ‘obrigado’, que tinha uma variação em ‘muito obrigado’, ‘obrigado, sim?’ e ‘brigado’… na minha lembrança afetiva as pessoas não eram tão educadas antes desse dia… confesso não saber se estavam abusando de boa vontade por serem assim, ou se uma criança sendo gentil faz abrir um sorriso e despertar o(a) ‘educado(a)’ dentro de nós…

li outro dia num blogue amigo, que a falta de educação incomodava a moça… fiquei feliz(?) por não ser o único… também não possuia a pretensão de assim sê-lo… é algo que tem me irritado muito! percebi a presença forte disso desde o carnaval… fui a blocos no centro e um dia fui levado a uma aglomeração de gente achando que haveria um em frente ao posto 9, ipanema (rio de janeiro)… até então, nada diferente da outra zona urbana: cheio pra caralho, gente suada se esfregando [o suco corporal facilitava o tráfego], todo mundo bêbado (inclusive eu), mas uma nuvem de má (ou falta de) educação tomava conta do ambiente: pisadas no pé, trancos com os ombros, cerveja na camisa, só faltaram passar a mão na minha bunda (se é que não fizeram ou tentaram e foi apagado)… não ouvi um pedido de desculpas, era como se a bestialidade fosse normal naquele local…

os leitores mais encrenqueiros irão pensar (não me falarão: quase ninguém comenta nesse blogue[só os de sempre], embora, no balanço diário, ele é bem lido, já tenho 8 leitores!): ‘ah, mas era carnaval… é normal que as pessoas tenham essas atitudes!’

normal? tem certeza? por que as pessoas que estavam comigo também estavam reclamando disso? estávamos em alguns blocos no centro isso não estava acontecendo, por quê? e não é verdade que gostam de falar que a área onde estava quando fui esbarrado, pisoteado, cervejado, e quase sofro um atentado violento ao pudor (estupro é vaginal), é frequentada pela ‘nata’ (talhada, mas nata) da sociedade carioca, as pessoas são lindas, ricas, cheirosas, interessantes e blablablá, por aí vai… onde estavam essas pessoas? no centro? não, as pessoas no centro eram bonitas, interessantes, cheirosas, e tudo o mais, mas não os mesmos que costumam frequentar o outro bairro [nota: adoro a praia do outro bairro, tá? a crítica é em relação à (nulidade de) educação, apenas!]… e lá, por mais bêbado que eu estivesse, [e olhem que na segunda-feira o bicho pegou], ‘desculpa’, ‘com licensa’, ‘deixa eu passar, por favor’, ‘passa aqui, ó, po’passar’, ‘valeuzão, cara!’ e infinitas coisas do tipo sairam mais de minha boca que as marchinhas (adoro marchinha!)…

esse foi só um exemplo…

outro rapidinho (mas nesse eu fui bem filho-da-puta [te amo, mãe, nada pessoal]): trabalho na ilha do fundão… no meu ponto, o ônibus (485) passa lotado, lotado, lotado! moro em botafogo e o ônibus só esvazia em laranjeiras, 3 pontos depois é o meu (pra pegar outro)… certa vez resolvi pegar em um ponto diferente, o primeiro do fundão, antes de dar a volta e encher de estudantes mal-educados… não são todos, mas suma maioria… parecia um ônibus fantasma… todos os lugares vazios; eu disse TODOS! subi, escolhi o mais perto da janela, banco único, uma janela só pra mim… e no próximo ponto o ônibus começara a encher… pela janela, percebo que uma coroa tá na fila e ninguém dá a vez para ela subir… o único assento vazio era atrás do meu e a penúltima pessoa a entrar (óbvio que a última foi a senhorinha) sentou nele… por ficar mais próximo a roleta e da porta, a jovem anciã ficou parada ao meu lado… pensei em fingir dormir, mas a imagem das minhas avós não me saiam da careca… pronto! levantei-me e dei o lugar… puto! mas fiz… não ia suportar ver aquilo… fiquei em pé, ao lado da menina que era mais nova que eu, não tinha trabalhado o dia todo e estava com sono (tanto quanto eu), querendo dormir… após perceber isso, o escroto que mora em mim (às vezes ele toma posse e não há quem tire) conta-tomou-me: se eu não vou dormir ela também não vai! e cada piscadela de olho e quebrada de pescoço que a mocinha dava, meu joelho ia de encontro, de leve, ao joelho dela – todos sabem que não há nada pior que tentar dormir no coletivo com alguém esbarrando em você – e assim foi até o narrador saltar…

a senhora dos belos cabelos brancos perguntou se poderia segurar minha bolsa, sorri, claro, mas disse que não… não era o caso… também fiquei a pensar o que uma pessoa daquela idade estava fazendo naquele ponto… ao imaginar que ela estava estudando, fiquei deveras feliz… prefiro manter essa hipótese… e outra mocinha, se ela não for tão tapada quanto a cara espelhava, aprendeu que não pode dormir quando não me deixa fazer o mesmo (isso me lembrou que essa noite eu tive insônia e estou a quase 24 horas sem domir [é, ‘foda-se’, né?!])…

então, se por acaso ter (boa)educação, se preocupar com os direitos alheios, bons modos, sorrir com a voz e (por quê não?) ser um romântico é ter nascido na época errada, desculpe-me os ‘moderninhos’, acredito que bons costumes nunca tenham caído de moda…

OBS.: Até o fechamento deste texto, que está sendo escrito há dias, eu estava em dúvida qual era o pior tipo de estudante dentro do ônibus, sabe qual a conclusão eu cheguei? Os que andam em bandos. Basta ter mais de 3 (primário, secundário, universitário, público, particular, não importa) e começam a gritar, se digladiar, atrapalhar a concentração de quem quer ler ou dormir (os meus casos) e por aí vai.


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sei lá, 1000 coisas… Inimigo do batente

5 Comentários Add your own

  • 1. Jujuba  |  18/05/2009 às 16:17

    bem, confesso que não li o texto todo, fiquei com vontade de comentar antes que minha memória me traisse…
    quando era pequena lembro que passei um carnaval em paquetá com uma amiguinha do colégio, e lembro que o máximo do dia era ir comprar pão na padaria de bicicleta e dar “bom dia” para todos os velhinhos da ilha!
    E até hj isso virou padrão… falo com todo mundo na minha rua e pessoas de convivio diário.
    Um exemplo que não me sai da memória, com uns cinco anos, voltando da minha madrinha, que no caso é minha dentista, estava indo com o meu pai pegar o metrô, e um carinha me deu aqueles panfletos (trago a pessoa amada em cinco dias, ex), eu peguei e automaticamente joguei no chão e continuei andando com o meu pai. meu pai me fez ir lá, apanhar do chão e jogar no lixo e falou que se é para fazer isso, era para eu agradecer e não pegar o panfleto… nunca mais esqueci. agora só pego panfletos dependendo do meu humor… e a minha boa vontade de procurar o lixo mais próximo!

    outro coments: todo ano perco o tesão pelo o carnaval… adoro, adoro mesmo… mas essa confusão tira totalmente minha vontade de curtir… No pré-carnaval sou a empolgação em pessoa, depois vou desanimando… e segunda… escolho muito bem a dedo os programas que vou fazer e tal…

  • 2. meutempoehquando  |  18/05/2009 às 19:25

    Johnny, Johnny…E a vida continua difícil para os sonhadores?!?! rs
    Pois é, concordo em genero número e grau com você. Estranho é pensar diferente, imaginar que o contrário também existe.
    Estou voltando meu querido. Logo, logo post novo. rs

    Beijos e continue “antigo”.

  • 3. stream  |  25/03/2010 às 12:47

    Very shorts, simple and easy to understand, bet some more comments from your side would be great

  • 4. SmokeEate  |  31/03/2010 às 01:42

    I really like when people are expressing their opinion and thought. So I like the way you are writing

  • 5. coracaodepoeta  |  31/03/2010 às 07:45

    Thanks so much! 😀

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