des(a)tino…

14/04/2009 at 16:28 1 comentário

no dia que, exatamente ao mesmo tempo, partiram – o que não come nada que tem olho, o que acredita na redenção da alma, o que acredita em evolução do espírito e o que acredita que reencarnará em uma vaca e o incrédulo – o destino não estava com paciência para ouvir lero-leros…

espantados após a visita do ceifador, vieram no barco conversando… eram os 5, apenas… não havia uma morta alma feminina na embarcação;.. estavam consciente do que se passava, e de certa forma, tranquilos, afinal, com a vida religiosa que levavam, pelos dogmas acreditados, não temeriam o que estava por vir… até os confortava…

não era uma boa hora para morrer… o destino, cansado do aproveitamento não-satisfatório do rendimento de seus subordinados, diante da situação imprevista, porém, acontecida mesmo sem seu consentimento, aguardava ansiosamente a chegada dos que estavam por vir…

depediram-se do barqueiro entregando-lhe duas moedas cada um, das quais não conseguiam imaginar como pararam em seus bolsos… tilintaram em no porta-níquel e da mesma forma que veio, desapareceu… quando a névoa baixou, todos, atordoados, estavam com as barbas aparadas, cabelos cortados, roupas brancas e limpas…

encontravam-se em uma sala também branca, com móveis, estantes, estátuas… tudo igualmente brancos… repararam nas cinco cadeiras que possuiam seus respectivos nomes… sentaram-se… e lá ficaram a aguardar… para passar o tempo, iniciou-se uma conversa, dessas de ônibus cheio e parado em engarrafamento, sobre o nada….

começaram a perceber que naquele lugar, onde cada um apostava todas as suas fichas de fé que lá ficariam, a não-percepção de como tudo acontecia era praticamente uma lei… as cadeiras surgiram, à medida que a conversa avançava, copos apareciam, mesas (uma parada cada) com guloseimas, escolhidas, pontualmente, ao gosto do freguês…

‘um paraíso’, pensou um deles…

o papo estava fluindo bem, ainda não haviam falado de religião, e nem viam motivos para tal, quando surge, ao longo, um senhor grisalho, barbudo, chapéu panamá, camisa aberta, bermuda e sandália trançada de couro cru… olhou para os 5, pegou sua prancheta (desnecessário dizer que surgiu do nada), e à medida que folheava, ‘rabisolhava’ um…

o silência era o dono do ambiente…

um telão baixou, todos olharam pra ele… o velho virou e balbuciu:

– alguém está com pressa?

se entreolharam, não sabiam o que responder, o velho riu e continuou:

– como vocês não soubeream me respondam, vamos assistir a esse filme e sirvam-se à vontade… o woody allen só o fará em 5 anos, mas eu adoro ele! peguei logo, não aguentei esperar, vamos assistir?

após o final do filme o velho não estava muito satisfeito:

– hum… não dá, sabem? não dá… woody allen não pode fazer filme pra grande estúdio… esse lance de contrato fechado faz ele travar… por mais milionário que seja… mas enfim… todos fartos, certo? praticaram bem a gula… ainda bem que não há moças no recinto, certo?

continuaram a se olhar… o velhou riu mais uma vez… desde a chegada dele que nenhum deles mais havia abrido a boca… mas só para faalr… comeram bastante… acredito que cada um deve ter pensado ‘bom, vou aproveitar, né?! quem não seja essa a minha última refeição? aliás, já foi, mas a última no além vida… ou será essa a primeira?’, porém, mesmo na dúvida, comeram como condenados à forca…

– bom, vamos lá… alguém quer perguntar alguma coisa?

o incrédulo viu a oportunidade fez-se falar:

– é… Deus?

o velho sorriu:

– pois não, meu filho…

– você existe mesmo!

– hahahaha… existir, Ele existe, mas não sou eu! hahahahaha… atentem ao telão! olha a cara de vocês… que coisa linda! adoro colecionar essas caras… de verdade, vocês acham que iria perder o, mais que precioso, tempo d’Ele para estar aqui, sentado, tomando chopp com vocês? ah, antes que perguntem: sim, Ele adora um chopp!

– mas então, quem é você?

– senhoras e senhores… (tambores tocando) que soem as cornetas… (cornetas soando) costumo dizer, senhores, que para o que não há explicação, lá estou… quando algo acontece, a culpa é minha… sorte ou azar, influência minha… sucesso ou fracasso, estou presente… sou o culpado pela ordem natural do universo… apresento-me: destino… obrigado…

e todos, sem querer fazê-lo, começaram a aplaudir…

– pois bem.. cá estamos… e hoje, quam vai cuidar de vocês, é o ‘eu’… geralmente a coisa é um pouco mais burocrática, mas, como vocês foram pessoas que não deram muito problema pro mundo, apenas pra mim, pois não era pra estarem aqui… olho pra vocês e sabem o que vejo? empresários, diretores, acionistas, e tudo dos bons… e não venham me dizer que não, que foi ‘eu’ que quis que vocês tivessem aqui… menos você – aponta para o incrédulo – você levou a vida que tinha que levar… mas vocês outros, me desapontaram… não era para estarem aqui! então, Ele me designou a tratar de vocês da forma que o ‘eu’ quiser… aqui está a ficha de cada um, já sei da religião de vocês… por falar nisso… que bobeira isso, hein?! ter que dar nome, oferenda ou seja lá o que for… mas vocês, hein?! nossa!

a cara de decepção do destino era tamanha… não conseguia entender o porquê do povo daquela parte do cosmos tinha essa necessidade de segregar conhecimento, segregar crenças e brigar por elas… não era de seu agrado… estava determinado a mudar isso… e, por ser quem era, tinha esse poder… e iria exercê-lo hoje…

– vamos lá… fichas em mãos, vamos começar por você – ao incrédulo, mais uma vez – você vai pro paraíso! aquela porta à direita, pode ir…

– mas eu… eu não sei se mereço…

– filho, quem sabe das coisas aqui, sou eu… pode ir…

– obrigado…

– não, não precisa me agradecer… esse é o meu trabalho e me divirto muito com ele… pode ir… anda…

e foi-se…

– hum… agora pinta uma dúvida: falo com cada um, separado ou todos juntos para cada um saber o ‘eu’ do outro? óh, dúvida cruel… deixar ‘eu’ decidir… bom… não vamos fazer igual a vocês… não vamos segregar… todos saberão os ‘eus’ dos coleguinhas!

entreolharam-se, pela nonagégima vez e sentaram-se para aguardar tal julgamento:

– pra não ficar caracterizado aqui a ‘crença’ de cada um, embora todos fizessem o bem e, ao mesmo tempo, eram pessoas boas, não falarei a religião de ninguém, tá? nem seus nomes, pra ficar todo mundo tranquilo, ok? eu vou chamando e o ‘culpado’ se acusa, ok?

em uníssono:

– ok!

fichas na mão, boa (?) intensão na cabeça e começou:

– redenção da alma?

– presente!

– passo à frente… isso… bom… vamos lá: você vai reencarnar..

– mas como assim? é contra tudo o que sempre me foi ‘homiliado’ e eu vou sentar à direita do…

– peraí, peraí, peraí! e quem ‘homiliou’? não foi um homem igual a você?

– mas ele estava em nome de…

– uma ova! ninguém estava em nome de ninguém… isso era o que ele te dizia… você vai reencarnar pra aprender a não acreditar em bobagens que instituições, que se aproveitam dos séculos de experiência, dizem… pronto!

pletch!

estalou os dedos, e no exato momento, uma criança que acabara de puxar o oxigênio e jogá-lo para os pulmões (onde sim, se cria vida, segundo as palavras do destino, não me culpem, este locutor é um mero mensageiro) ao sair do ‘casulo’… era a nova portadora daquela alma… aquele era o seu novo casco… chorava! todos acompanhavam pelo telão… e ela chorava e chorava… em determinados momentos alguns chegaram a pensar que o bebê chorava de raiva… os olhos eram os mesmo do meliante em questão…

– próximo… hum… quem é que não come nenhum animal que já tenha sido vivo? se é que existe algum animal que não tenha, mas tudo bem… deixa pra lá.. quem é?

– esse sou eu – virou-se imponente…

mas o destino já sabia quem era…

– ah, é você? então o senhor acredita que a cadeia alimentar pode ficar ‘desbalanceada’ que a natureza se equilibra sozinha, é? achas então que um leão leva uma vida infeliz porquê comeu uma zebra, é isso mesmo?

– eu não preciso… quero dizer, precisava me valer da morte de nenhum ser vivo para poder me…

– então os vegetais não tem vida?

– não, é que…

– pronto! já decidi…

– cadê o que queria virar uma vaca? nem precisa, vocês parecem que são todos iguais… dê um passo à frente, você…

– pronto!

– exato… camarada, você vai ficar aqui, purgando… você sabe porquê…

– justo!

– aliás, não é justo… você é inteligente, sabe mexer bem com números… ficará purgando, mas ao meu lado… preciso de gente como você…

– perfeito! ansiava por algo assim…

– e eu? – disse o vegetariano…

– você reencarnará em uma vaca! vai fazer parte da cadeia aliementar…

– mas eu…

pletch! – estalou os dedos o destino… e lá estava ele, sendo parido num curral…

– só falta você… e aí? o que me diz? seu espírito evoluiu?

– olha, não sabia que o julgamento seria assim, então eu acho…

– não, não será assim, só queria ouvir de você… essa era uma chance que eu ia te dar… se a resposta fosse clara e positiva, sem rodeio: perfeito! evoluído estavas… é o tipo de coisa que a gente sabe, não ‘acha’… e como começou com ‘achismos’… ah… por favor, né? pode voltar…

pletch! – estalou os dedos, de novo… e no telão estava ele, nascendo… não chorou, de raiva… prendeu a respiração com o cordão umbilical… rapidamente o destino tratou de corrigir isso… dessa vez não… dessa vez não sem o seu consentimento… os médicos foram rápidos, cortaram o cordão, mesmo assim ele não chorou… continuava a olhar pra câmera imaginária, emburrado… prevendo que aquela alma daria trabalho, colocou o seu mais novo ajudante à disposição dele… sabia que iria dar trabalho…


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minhas noites de uva-do-monte… músicas…

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