meta fora…

21/01/2009 at 16:23 Deixe um comentário

– você é um safado mesmo, né?!

– oi…? não estou te ouvindo… a ligação tá ruim…

– ah, tá bom, ‘ligação ruim’, cachorro?

– alô… desculpa, pode ligar de novo?

foi o tempo que ele teve para pensar… entre uma ligação e outra estava lá, maquinando o que iria falar… ‘oh, meu Pai, por quê fazes isso comigo?’… sempre a mesma coisa: conhecia uma pessoa, saía umas duas ou três vezes, fazia um balanço sobre o comportamento / poder de síntese / capacidade de associação / conhecimentos gerais – era uma lista beeeeem grande, minuciosa, ia do tom de voz ao último filme que vira – e após a terceira vez, algumas ponderações, conclusões (precipitadas ou não), chegava a um veredito, nem sempre favorável… sabia da dificuldade de conhecer alguém que valesse à pena… suas esperanças eram meras ilusões… ao longo, a parafina do novo, do belo, do interessante, ia derretendo… e nem sempre por de trás do invólucro de cera apareceria uma escultura belíssima… justo o contrário, muitas das vezes, desmanchava-se junto…

ciente que seu telefone iria tocar em menos de trinta segundos, mário pensou: metáfora! – mas meus conhecimentos sobre o assunto são tão pequenos… ah… também, nem merece que eu gaste muito… vamos nessa…

e assim ia levar seu papo com rita…

– mário? tá me ouvindo agora?

– imagina que você está escutando uma fita antiga, gasta, mas uma música que você gosta muito…

– hum…

– e, de repente, passa para um cd com a mesma música… fanstástico, não?

– acho que sim, né?

– então, é assim que estou ouvindo você agora, muito melhor…

– ah, é? tudo isso só pra dizer isso?

– ué, ritinha, não estava te ouvindo antes… pode falar, o que você quer?

– o que eu quero, safado? você é um cachorro!

em meio a seus pensamentos, mário continuava sem ver uma saída:

– ela já disse isso antes – divagou pelo óbvio – era pr’eu ter pensado em algo melhor que ficar calado…

e rita continuava esbravejando:

– pôxa, mário… achei que a gente tinha uma conexão… que a gente fosse assim, saca? e você nunca mais me ligou… por quê?

– rita, eu como salada de frutas todos os dias de manhã… adoro salada de frutas… mas de uns tempos pra cá, ando preferindo comer um sanduíche… num sei te explicar o porquê, mas prefiro um sanduíche… mas continuo gostando da salada de frutas, mas o sanduíche tem me chamado mais atenção, tem sido mais apetitoso, não sei explicar, mas tenho preferido…

– e…?

– você não acha que a salada de frutas iria ficar magoada se eu falasse pra ela assim: pô, saladinha, você sabe que eu te adoro, né? mas num dá mais não… o sanduíche está tomando conta das minhas manhãs… na verdade, raramente eu lembro que você existe… você não acha que a salada de frutas iria ficar muito magoada?

– eu acho… acho que você é um enrolão filho-da-puta, isso sim!

– presta atenção, ritinha, antes de ficar me xingando por aí… adoro cinema, mas gosto também de ler… às vezes, eu quero…

– ow, ow, ow!!! para, para, para tudo! nem vêm… para com isso! não quero ficar ouvindo esses papinhos… por quê você não é direto comigo?

– que tipo de direção você espera de mim? quando me conheceu, se eu bem me lembro, fui bem claro contigo…

– claro como? dizendo que me achava linda? é? isso é ser claro?

– ué, é… não menti em momento algum pra você… e em nenhum instante disse que iríamos namorar ou qualquer coisa do tipo… eu falei que iria ligar e realmente iria… mas ando muito ocupado ultimamente, deixei isso bem claro pra você também…

– ah, vai à merda… covarde! custava ligar pra dizer que… sei lá… que num estava mais me curtindo…

– ué, mas eu curti, ritinha… todos os momentos em que tivemos juntos eu curti ao máximo… foi legal, foi bacana, mas de repente eu fiquei cheio de coisas pra fazer… foi isso que aconteceu… faltou tempo e comunicação…

– tua cara num treme, não? me fala na maior cara dura isso tudo… você é um covarde filho-da-puta, isso sim… você vai passar por isso… você ainda vai ver como é isso… vai se fuder ainda…

– que isso ritinha… tá vendo, por causa dessas suas instabilidades emocionais, de jogar suas frustações profissionais, pessoais e amorosas em qualquer um que beija a sua boca, e ainda bem que não passamos disso, por essas e…

– como é que é? ‘ainda bem que não passamos disso’? você tem certeza que você acabou de me falar isso? ‘ainda bem que não passamos disso’? tem certeza do absurdo que você está falando? foi isso mesmo que você falou?

– é… não…

– escuta aqui, seu merda: instável emocionalmente é a pu-ta-que-te-pa-riu… a senhora sua mãe… frustrada é o caralho! eu me dando pra você e ainda tenho que ouvir que ‘ainda bem que não passamos disso’?

– ritinh…

– ritinha é o caralho! vai tomar no meio do olho do seu cu!

e no exato momento em que rita desligou o telefone, como que calculado pelo universo – o pai da matemática – beatriz acaba de chegar do banheiro:

– o que houve, má? quem era?

– nada não, bia… era a menina que trabalha lá em casa perguntando se eu queria que passasse umas camisas sociais, nada demais…

e mário iria sair mais uma vez com beatriz para poder fazer o balanço… a eterna busca de mário poderia estar chegando ao fim… ou não!


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o caso da rua plerck… soneto da falta de inspiração…

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