ah, quer saber? …

07/01/2009 at 16:14 1 comentário

não havia um só dia na vida de tadeu em que não acontecesse o mesmo fato: um chato contando-lhe algo que ele não queria ouvir…

era simples, estava tadeu no ponto-de-ônibus e começavam:

– fogo, né? demora, hein? vou te contar… sabe que outro dia eu estava… – pronto! estava instaurado o clima… tudo propício: ônibus que demorava, sol de meio-dia, vontade de almoçar, ônibus que insistia em se atrasar e um chato ao seu lado, uma simples não-aparição do ônibus era um grande motivo para o importuno ficar lembrando o quão melhor era a vida há dez anos atrás, quando ainda não havia sido despedido da multinacional, e por aí vai…

as estórias eram sempre as mesmas, relembranças de tempos menos difícieis, onde tudo era, de certa forma, melhor… a vida passou, o devido valor não foi dado, e o momento de choro pelo leite não bebido era esse… mas tadeu, coitado (realmente, no sentido literal da palavra), não era o culpado, nem mudaria a vida de ninguém… ‘por quê me contam essas coisas?’, perguntava-se diariamente…

o mais impressionante, além da capacidade de aturar, era a de atrair… até em elevador, onde as conversas costumam ser corriqueiras, iam muito além do ‘tempo doido esse, né?’… talvez a culpa fosse de tadeu… talvez o seu semblante calmo, passivo, imprimisse que era um bom ouvinte… e realmente o fazia muito bem: não cortava, não ‘dava fora’, não fazia expressões faciais a dar a entender que não gostava (leia-se: caretas); levava tudo ‘numa boa’…

ao longo dos anos, aprendera a classificar os indigestos, dependia apenas do início da colocação, já estava prescrito o tipo enfadonha que estava por vir…

se a frase começasse ‘ih, isso me lembra minha filha…’ a conclusão logo era: mulher carente cuja atividade não a satisfaz, transpõe toda sua infelicidade no rebento…

algumas eram fatais ‘em 1957 eu fui pra brasília…’, ‘na época, meu pai era o dono da…’, ‘a gente não imagina que um amigo próximo vá fazer…’ ou qualquer argumento parecido: fracassados!

tadeu ouvia de tudo, era lamento o dia todo… certa vez, no mesmo dia, escutara três das expressões que mais odiava, não foram nem uma, nem duas… foram três: ‘antigamente’, ‘hoje em dia’, ‘só aqui, mesmo’… foi o último sopro na bexiga!

Decidido a mudar, a não mais levar reclamações alheias pra casa, escreveu num papel e foi dormir com a frase (composta por um verbo, um hífen e um promone) nas idéias…

passaram-se mais de dezoito horas do dia seguinte e nenhum (eu disse: nenhum!) mala o havia parado… nem o menino do amendoim ‘compra um, tio, só pra me ajudar’, como a insistência foi zero, mereceu…

após anos aturando, aquela frase (se é que podemos chamá-la de frase) estava entalada… parou em todos os pontos-de-ônibus que viu pela frente, pegou os coletivos mais cheios, enfretou todos os tipos de fila – mercado, banco, lanchonete, de ônibus(por quê, não?) – foi a prontos-socorro, e nada! não havia ninguém disposto a mudar seu humor…

tadeu ansiava por um chato…


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‘a desconstrução da estética pós-moderna’ ou ‘o não-texto’ Previsões para 2009

1 Comentário Add your own

  • 1. Jujuba  |  14/01/2009 às 10:29

    um chato para confirmar a sua vontade de mudar…

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