quem conta um conto…

22/12/2008 at 10:18 2 comentários

esta é uma história verídica que eu ouvi domingo passado (14) e me senti atraído a contá-la… talvez, ao longo das palavras, tenha colocado uma ou outra coisa que não aconteceu, afinal: ‘quem conta um conto’…

naquela segunda-feira de manhã, todo o dispensável aconteceria com daniel: perdera o ônibus, atrasado na escola, recebeu sua terceira advertência e não pôde assistir a primeira aula… após 25 minutos de espera na fila no recreio, acabou o refrigerante de cola que ele tanto queria para acompanhar sua bananada… na educação física, jogando vôlei, ao salvar uma bola, metade da pele de seu joelho ficara na quadra e, como acontece com TODOS (para seu alívio posterior), seu time não conseguiu passar a bola e, independente de seu esforço, o adversário marcara ponto…

nada disso abalaria tanto o seu dia como o fato que estava para acontecer…

há um certo detalhe que até o momento fora velado: daniel é gago… de nascença… dos piores! e não sabe controlar sua gagueira… já tentou falar mais grosso, mais fino, cantando, rápido, devagar… nada adiantou… ou convivia bem com sua gagueira ou desistia de falar… porém, essa última opção era inviável…. ele adorava as palavras… não teria como livrar-se delas… qual a solução? lia bastante… até gostaria de escrever, mas não o fazia…. produziu um poema certa vez, falando sobre o invólucro feminino, da infelicidade do amor não-correspondido, da falta que os anos que não tinha lhe faziam para entender os pensamentos de uma mulher… era sublime… contudo, quando pediram-lhe para proclamá-lo, o que ouviram foram 4 ou 5 tentativamos de balbuciar ‘o sol’:

– o… o… o… o so… o so… o….

não é necessário dizer o final desta estória, porém, como estou aqui para contá-la, não cabe a mim escondê-lo: daniel engoliu o bilhete, nunca mais escreveu e hoje o mundo sofre sem a sua poesia….

os leitores mais curiosos devem estar se perguntando o que aconteceu com daniel no dia das infelicidades, os outros já fecharam a página e estão fazendo qualquer outra atividade… pois bem, chegara no ponto de ônibus e duas meninas, por volta de sua idade, aparecem ao longe…. eram de uma escola vizinha à sua, no mesmo bairro… diferente das expectativas costumeiras, quanto mais se aproximavam, mais bonitas pareciam ser…

daniel, como todo rapaz de sua idade, não conseguia ficar sem olhar para as duas… uma em especial chamou-lhe a atenção: a da direita…

após chegarem ao ponto, conforme o costume de todas as meninas dessa idade, riam alto, faziam piadas sem graça, contavam estórias vazias, riam mais alto ainda… mesmo assim, daniel, não parava de flertar com a menina da direita…

parecendo ser algo de se esperar, as duas olharam para ele, se fecharam em forma de concha, cochicharam duas ou três frases e a da esquerda foi ao encontro de daniel…

e desde o primeiro passo dela em sua direção, até o momento em que chegou perto e ameaçou abrir a boca, algo que deve ter durado por volta de 12 segundos, seus pensamentos eram rápidos e descontruídos, como um taquígrafo bêbado captando uma conversa de metrô:

‘meio dia e trinta e dois! é isso! ela quer saber a hora! falarei meio dia e trinta e dois! finjo que olho no relógio, descontraído, e digo – meio dia e trinta e dois – pronto! simples assim… meio dia e trinta e dois… mas e se já forem meio dia e trinta e três? não! melhor não dar sorte ao azar… ‘meio dia e trinta e dois, gatinha’… não! gatinha, não! ela ‘tá se aproximando, ‘tô demorando a me decidir, mas isso é certo: no ‘meio dia e trinta e dois’ eu não vou gaguejar! meio dia e trinte e dois é meio dia e trinta e dois! não dá pra gaguejar meio dia e trinta e dois! ela chegou, meu Deus, o que fazer? ‘meio dia e trinta e dois’!’

– oi… minha amiga te achou gatinho, qual o seu nome?

– m…?

‘ãh? não era a hora? como assim ‘gatinho’? a menina da direita? tem certeza? mas é simples, meu nome é daniel!’

– …

– oi…. seu nome é?

– …!

– hum…

– …!!!

– ah, tudo bem, ó, num liga não… depois a gente se fala, tá?

subiram no ônibus, rindo da situação inusitada e, como vieram, foram…

e durante os 20 minutos do trajeto do ponto de ônibus até sua casa foi falando o que recheava sua cabeça, não conseguindo pensar, falar, ou fazer qualquer ato que não fosse ingerir uma única palavra, consecutivamente:

– DANIEL! DANIEL! DANIEL!


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só a bailarina que não tem… houve uma vez…

2 Comentários Add your own

  • 1. Náshara  |  22/12/2008 às 16:01

    Hahahaha
    Sem comentários!!!
    E fui eu que contei o fato, mas o conto ficou mais do que sensacional!

  • 2. Jujuba  |  14/01/2009 às 10:50

    tadinho…

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